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 por Fernando Barrichelo

Veja como forçar a cooperação (estratégia 1)

Nota: Recomendo primeiro ler o artigo sobre o Dilema dos Prisioneiros.

Como resolver o Dilema dos Prisioneiros? Como conseguir a cooperação quando os incentivos induzem as pessoas ao egoísmo e ao individualismo, mesmo sabendo que no final todos perdem? Existem duas formas: a primeira é ter um Regulador Central, e a segunda é a estratégia do Olho por Olho em jogos repetitivos, quando retaliação induz a cooperação. Neste artigo vamos tratar a primeira estratégia.

 

Estratégia 1: O regulador central

Uma das estratégias para conseguir a cooperação em um ambiente competitivo é o uso de uma autoridade central que force os jogadores a colaborar sob pena de alguma sanção. É o que ocorreu com a Lei Cidade Limpa, na cidade de São Paulo, vigente desde 2007. Antes da lei, existia na cidade uma verdadeira guerra de propaganda visual, um típico Dilema dos Prisioneiros. Para serem vistos, os comerciantes colocavam letreiros cada vez maiores em suas lojas. Como consequência, as logomarcas nem sequer eram notadas e aquilo gerava uma poluição visual enorme. Assim, ninguém saía lucrando (apenas as empresas de letreiros…).

Um modo de converter esse esquema numa matriz de resultados é mostrado na figura a seguir.

Fig 1- Matriz de resultados da Lei Cidade Limpa

Se as empresas não entrassem na guerra do “O meu é maior e mais luminoso”, todos estariam ok (quadrante esquerdo superior – manter tamanho). Entretanto, a tentação era muito grande para não aproveitar: se a Loja 2 aumentar o tamanho de seu letreiro, o logo dela vai aparecer “muito” e o da Loja 1, “nada”, pois o grande ofusca o pequeno. O inverso ocorre se a Loja 2 aumentar o tamanho do letreiro e a Loja 1 manter o tamanho do seu. O final você já sabe. Se ambas aumentarem o tamanho do letreiro, as duas aparecem “pouco”.

Embora seja uma representação aproximada (os resultados são: ok, muito, nada, pouco), o esquema demonstra a essência desse jogo. Existe uma estratégia dominante para aumentar o tamanho do logo, uma vez que “muito” é melhor que “ok”, e “pouco” é melhor que “nada”.

Como resposta a esse dilema, a prefeitura de São Paulo limitou o tamanho dos letreiros de cada loja a 4 metros quadrados e até 5 metros de altura. Essas dimensões podem ser questionadas do ponto de vista arquitetônico; entretanto, como política pública para combater a poluição visual e terminar a guerra entre as lojas (Dilema dos Prisioneiros), a lei é bem eficaz, pois os jogadores (as lojas) não conseguiam cooperar espontaneamente. Afinal, eles estavam numa armadilha e não sabiam sair dela. Se você tem uma loja e decide manter o tamanho do letreiro, quem garante que seu vizinho não vai aumentar o dele? E se ele aumentar, ofuscando o seu, o que você fará?

Outro exemplo de regulador central

Quando governos de vários países proibiram a propaganda de cigarro, muitos acharam que seria o fim da indústria do tabaco. Mas não foi o que ocorreu. As empresas também estavam num típico Dilema dos Prisioneiros, presas à armadilha de gastar fortunas em propaganda. As campanhas publicitárias eram caras e ostensivas, mas o propósito era defensivo – uma empresa fazia campanha porque as demais faziam. O exemplo é similar ao nosso caso do posto de gasolina: se uma empresa deixasse de fazer propaganda, dado o investimento da outra, os clientes poderiam migrar de marca e transferir o lucro. No fim, a restrição da propaganda ajudou as empresas a evitar campanhas milionárias; e mesmo sem esse artifício para atingir o público, não perderam lucratividade, pois os custos diminuíram (para todos).

Tanto no caso da Lei Cidade Limpa como no da propaganda de cigarro ou no aumento/redução de preços, os jogadores (empresas ou indivíduos) até agradecem uma autoridade central que os obrigue a um acordo coletivo que limite a competição e o canibalismo.

Esta é a Estratégia 1 (Regulador Central) para resolver o Dilema dos Prisioneiros e forçar a cooperação. Continue e leia a Estratégia 2 (Olho por Olho) – uma outra forma de induzir a cooperação através de interações repetidas mesmo com retaliações.
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