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 por Fernando Barrichelo

Veja algumas vantagens dos cursos online

(Você pode ler em PDF clicando aqui)

Muitos estudos defendem que a educação tradicional está obsoleta, necessitando de uma verdadeira revolução. Por outro lado, os criadores dos cursos online mais renomados dizem que o sucesso deles é fruto justamente da cópia de alguns aspectos dos cursos reais e presenciais. Existe uma contradição aqui? Não exatamente. O segredo é incorporar o melhor do modelo presencial e alavancá-lo com outras características que apenas a tecnologia online permite.

Daphne Koller, fundadora do Coursera, apresentou uma interessante palestra no TED TALKs chamada O que estamos aprendemos com a educação online, em 2012 (link aqui). Há ótimos insights.

Ela se diz uma pessoa de sorte, pois nasceu numa família de acadêmicos e conseguiu estudar em universidades de elite. Mas infelizmente a maioria não tem tanta sorte. Na África do Sul, por exemplo, a educação não é acessível, pois o sistema educacional foi construído para a minoria branca, na época do apartheid. Como consequência, hoje não há vagas suficientes para os que merecem uma educação de qualidade. Houve uma ocasião na Universidade de Joanesburgo em que, como sobraram algumas vagas do processo regular, milhares de pessoas ficaram ao portão em uma fila de 1,6 km, na esperança de conseguir uma vaga. Quando os portões foram abertos, houve tumulto, 20 pessoas ficaram feridas e uma mulher morreu.

Mas, mesmo em lugares como os Estados Unidos, onde educação é acessível, ela pode não ser atingível. Daphne relata que muito se discute sobre o aumento no custo do sistema de saúde. Entretanto, como mostra a Figura 1, o custo da educação superior vem subindo quase o dobro, a um total de 559 por cento desde 1985. Isso torna a educação inacessível a muitos. Ainda, mesmo aqueles que almejam ter um curso superior, as portas da oportunidade podem não se abrir. Como mostra a Figura 2, pouco mais da metade dos universitários recém-formados nos EUA estão realizando trabalhos que requerem tal formação. [FIGURA 1 e 2]

FIGURA 1 – Custo da educação cresce mais que outros custos

FIGURA 2 – Metade dos recem-formados realizam trabalhos que não requerem tal formação

 

Tom Friedman, jornalista do New York Times, uma vez disse:

As grandes descobertas ocorrem quando o subitamente possível encontra o desesperadamente necessário.

Já se comentou sobre o desesperadamente necessário. Vamos falar agora sobre o subitamente possível. Andrew Ng, parceiro de Daphne, leciona em uma das maiores turmas da Universidade de Stanford, com a disciplina Machine Learning, e há 400 inscritos sempre que ela é oferecida. Quando Andrew abriu essa matéria ao público em geral, houve 100.000 inscritos. Para dar uma perspectiva desse montante, para Andrew atingir esse número de alunos dando aulas em Stanford, teria que fazer isso por 250 anos.

Ao ver o impacto disso, Daphne e Andrew decidiram criar o Coursera para levar o ensino de qualidade ao máximo de pessoas possível. O objetivo é escolher os melhores cursos, dos melhores instrutores e universidades, e fornecê-los gratuitamente a todos no mundo. Na época da palestra, ela diz existir 43 cursos na plataforma, de quatro universidades. Desde a inauguração, já foram inscritos 640.000 alunos de 190 países, 6 milhões de testes e 14 milhões de visualizações de vídeos.

Mas.. cursos online existem há muito tempo, então o que há de diferente nesses cursos?

 

A diferença é que são experiências de um curso real

Os cursos começam em dia determinado, os alunos assistem aos vídeos semanalmente e fazem deveres de casa. São deveres de casa reais com avaliações e prazos reais. Na Figura 3, são mostrados a quantidade de usuários no site durante o curso. Daphne brinca que os picos que antecedem as provas mostram que procrastinação é um fenômeno mundial. [FIGURA 3]

Ao final do curso, os alunos recebem um certificado, podendo apresenta-lo a um provável empregador e obter um emprego melhor; há relatos que muitos alunos conseguiram. Outros alunos apresentam o certificado a uma instituição educacional para obtenção de crédito.

FIGURA 3 – Timeline do cursos e respectiva quantidade de usuários no site

 

 

As características que funcionam

Alguns formatos do curso tem dado muito certo. São eles:

 

1. DIVISÃO DA MATÉRIA EM MÓDULOS CURTOS. Quando você se afasta das limitações do espaço físico da sala de aula e projeta o conteúdo explicitamente para um formato online, você pode fugir do monolítico discurso de uma hora. Pode-se dividir o material, por exemplo, em curtas unidades modulares de 8 a 12 minutos, cada qual representando um conceito coerente. Os alunos podem examinar o material de diferentes modos, dependendo de sua formação, habilidades ou interesses. Alguns alunos podem se beneficiar de um pouco do material preparatório que outros alunos já tiveram. Outros alunos podem ter interesse em estudar mais profundamente um tópico em particular. Assim, esse formato permite romper com o modelo único de educação para todos, e permite aos alunos um currículo mais personalizado. [FIGURA 4]

FIGURA 4 – A materia é dividida em curtas unidades modulares de 8 a 12 minutos

 

2. ACOMPANHAMENTO DO APRENDIZADO DO ALUNO. Em geral, alunos não aprendem assistindo a vídeos passivamente. Talvez um dos maiores componentes do Coursera seja fazer com que os alunos pratiquem o conteúdo para compreendê-lo bem. Há uma série de estudos demonstrando a importância disso. Mesmo com uma simples prática de revisão, quando alunos apenas repetem o que já foi ensinado, os resultados são mais satisfatórios.

Por isso, os fundadores incorporaram os exercícios de revisão na plataforma. Como exemplo, o vídeos não são apenas vídeos. A cada poucos minutos, o vídeo pausa e os alunos recebem uma pergunta. O aluno digita a resposta e a envia. Daphne, conhecendo a natureza humano do aluno, brinca que “Claro que não estão prestando atenção. Então tentam novamente, e dessa vez acertam“. No vídeo, posteriormente a pergunta-resposta, há uma explicação opcional, caso queiram. Dai o video avança. [FIGURA 5 e 6]

FIGURA 5 – O professor interage como se estivesse presente

FIGURA 6 – O professor faz a pergunta, o “vídeo espera” a resposta e o “computador” corrige online

 

Daphne é bem realista sobre a necessidade de fazer pausas e checar o entendimento, pois os alunos se distraem. Ela diz:

Nas minhas aulas normais, quando faço uma pergunta, 80% dos alunos ainda estão anotando o que acabei de dizer, 15% está no Facebook, e 5% são os sabichões da primeira fila que se apressam a responder antes que os outros tenham chance de pensar a respeito. Mas assim a aula segue… e a maioria dos alunos nem perceberam que a pergunta foi respondida. É por isso que, no mundo online, cada aluno TEM que se envolver com o assunto.

É claro que essas simples questões de revisão online não são o fim da história. É preciso criar outros exercícios bem mais significativos, e também prover aos alunos feeedback sobre as questões. Mas, como avaliar o trabalho de 100.000 alunos se não há 10.000 tutores? A resposta é: usando tecnologia. Como a tecnologia avançou muito, é possível usar testes de múltipla escolha e os estilo de perguntas curtas já comentadas. Mas como é difícil avaliar todas as tarefas em todo tipo de curso, especificamente em disciplinas de Humanas, Ciências Sociais e Negócios, os criadores encontraram um outra solução, a seguir.

 

3. AVALIAÇÃO ENTRE ALUNOS. Daphne e seus parceiros chegaram a conclusão que poderiam usar a “avaliação entre alunos”, uma vez que alguns estudos mostram que esse tipo de avaliação é bem eficaz para corrigir exercícios. Na Figura 7, nas turmas que já usaram, eles perceberam que as notas dadas por alunos no eixo y estão bem correlacionadas às avaliações feitas por professores no eixo x.  O mais surpreendente é que as autoavaliações – quando alunos avaliam seus próprios trabalhos, desde que incentivados da forma correta, para que não se autoavaliarem com nota máxima – estão ainda melhor correlacionadas às avaliações dos professores. Assim, essa é uma estratégia eficaz que pode ser usada nas avaliações em larga escala. [FIGURA 7]

FIGURA 7 – Avaliação entre alunos funciona tão bem quanto do professor

 

Como alavancar ainda mais o aprendizado

Daphne ainda visualiza outras aplicações oriundo do mundo online/digital e similaridades com o método tradicional e cognitivo de aprendizado. São eles:

 

A. USAR BIGDATA PARA IDENTIFICAR PADRÕES. A coleta de dados é inédita, com muito potencial. É possível colecionar cada clique, cada dever de casa, cada comentário em cada fórum – de dezenas de milhares de alunos. O estudo da aprendizagem humana pode mudar do modelo dirigido por hipóteses para o modelo dirigido por dados. Como a Daphne diz:

Podemos usar esses dados para entender questões fundamentais. Quais são as estratégias de aprendizagem eficazes e as que não são? Quais são os conceitos equivocados mais comuns e como podemos ajudar os alunos a resolvê-los?

Exemplo: a Figura 8, sobre o curso sobre Machine Learning, mostra a distribuição de respostas erradas em um dever de casa. Cada cruzinha é uma resposta errada diferente. A cruz grande no alto à esquerda marca o lugar em que 2.000 alunos deram a mesma resposta errada. Se 2 alunos de uma turma de 100 derem a mesma resposta errada, ninguém notaria. Mas quando 2.000 dão a mesma resposta errada, difícil não notarmos. Assim, os professores olharam alguns trabalhos, entenderam a raiz do equívoco, e produziram uma mensagem de erro específica para aparecer quando os alunos cometerem esse erro. Assim, os alunos poderiam ter feedback personalizado para corrigir o equívoco mais efetivamente. Esse tipo de personalização só pode ser feito quando se tem esses números e análises. [FIGURA 8]

FIGURA 8 – Neste caso, detectado que 2.000 estudantes deram a mesma resposta errada

 

2. TUTORIA INDIVIDUAL. Com a tecnologia, é possível personalizar cada vez mais e, como diz Daphne, talvez seja uma das grandes oportunidades para resolver um problema de há mais de 30 anos. Em 1984, o pesquisador educacional Benjamin Bloom expôs o chamado Problema “2 Sigmas” após o estudo de 3 grupos de estudantes.

  • No primeiro grupo, os estudantes estudaram numa turma de aulas expositivas.
  • No segundo, estudaram numa sala de aula expositiva, mas com abordagem de “domínio de conteúdo” – os alunos só avançavam ao tópico seguinte quando demonstravam ter dominado o anterior.
  • No terceiro, alunos aprenderam através de instrução um a um, com um tutor.

Ao avaliar a efetividade de aprendizado, no grupo 2 (abordagem de domínio de conteúdo) houve melhoria de desempenho relativo a um desvio padrão total, ou 1 Sigma, comparado com o grupo de aulas expositivas. O grupo 3 (com tutoria individual) atingiu melhoria de aproveitamento de 2 Sigmas.  [FIGURA 9]

FIGURA 9 – O terceiro grupo, o de Tutoria Individual, aprendeu mais

 

Vamos entender o significado disso. Saindo de um ponto de comparação, considere a turma de aulas expositivas como desempenho médio. Assim, numa turma de aulas expositivas, metade dos alunos estão acima desse nível e metade abaixo. Assim, no método de tutoria individual, 98 por cento dos alunos estão acima desse limiar. Imagine se pudéssemos ensinar de modo que 98% de nossos alunos ficassem acima da média – por isso foi batizado de Problema 2 Sigmas.

Seria literalmente impossível prover cada aluno com um tutor humano individual. Mas Daphne é otimista: talvez seja possível dispor a cada aluno um computador ou smartphone. Daphne tem confiança e diz:

É fácil alcançar excelência através de um computador. Ele não se cansa de mostrar o mesmo vídeo cinco vezes. Ele não se cansa de avaliar um trabalho muitas vezes, como vimos isso vários exemplos. A personalização é algo que está apenas começando (a tecnologia vai avançar mais), seja via trajetória personalizada através do curriculo ou algum feedback personalizado que mostrei. Portanto, a meta aqui é inovar mais e tentar deslocar ao máximo a curva azul para a curva verde.

 

Até onde vamos chegar

Daphne finaliza questionando se as universidades estão ficando obsoletas, citando uma frase de Mark Twain: “A faculdade é um lugar onde as anotações de aula do professor vão direto para as anotações de aula dos alunos, sem passar pelos cérebros de ambos.” Ela discorda. Não se deve fazer críticas às universidades e sim ao formato de aula. É preciso gastar menos tempo nas universidades com discursos, e mais tempo estimulando criatividade, imaginação e habilidades de resolução de problemas, conversando, de fato, com os alunos.

Como fazer isso? Através de aprendizagem ativa em classe. Há muitos estudos, como mostra a Figura 10, que provam que se usarmos a aprendizagem ativa, interagindo com os alunos em classe, a performance avança nas três métricas métrica — na frequência de aula, no engajamento e no aprendizado. A taxa de desempenho quase dobra nesse experimento em particular. [FIGURA 10]

FIGURA 10 – Melhor performance com o aprendizagem ativa

 

Daphne termina da seguinte forma. “Resumindo, se pudéssemos oferecer uma educação de alta qualidade a todos no mundo gratuitamente, o que aconteceria? Três coisas. Primeiro, a educação seria um direito humano fundamental, para todos no mundo, ensinando habilidades necessárias para melhorar a vida, a família e a comunidade. Segundo, ela possibilitaria o aprendizado contínuo. É uma pena que, para tanta gente, o aprendizado termina quando eles acabam o ensino médio ou a graduação. Mas tendo esse incrível conteúdo disponível, poderíamos aprender algo novo sempre que quiséssemos. E finalmente, isso permitiria uma onda de inovação, porque talentos maravilhosos poderiam ser encontrados em qualquer lugar. Talvez o próximo Albert Einstein ou Steve Jobs esteja morando numa distante vila na África. E se pudéssemos oferecer a ele uma educação, ele poderia ter a próxima grande ideia e fazer do mundo um lugar melhor para todos”.


SAIBA MAIS:

O vídeo da palestra acima:

  • Daphne Koller (fundadora do Coursera) – O que estamos aprendemos com a educação online – neste link.

Três palestras similares que ratificam os mesmos princípios de aprendizagem são:

  • Salman Khan (fundador do Khan Academy) – Vamos usar o vídeo para reinventar a educação – neste link.
  • Anant Agarwal (diretor do Edx) – Por que cursos abertos online em massa (ainda) são importantes – neste link.
  • Peter Norvig (professor de inteligência artificial) – A sala de aula de 100.000 alunos –  nest link.

Aproveitando o tema Educação, talvez você goste de meu outro artigo:

  • É correto remunerar crianças pelas boas notas? – neste link

Explore os principais sites de cursos online: Coursera, Edx, Khan Academy, Udacity, Udemy, Veduca, Eduk, FGV Online, Sebrae.

 

IMPORTANTE: Dependendo da sua necessidade, saiba diferenciar entre as opções os “cursos com exercícios e discussões” dos “simples videos educativos”.

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